O Paciente de Dor e a Acupuntura: Razões na Escolha do Tratamento

Dr. Marcus Vinicius Ferreira
médico acupunturista

Trabalho apresentado no II Congresso Brasileiro Sobre Dor, São Paulo, março de 1996

  1. Introdução
      
  2. Método
      
  3. Resultados
      
  4. Conclusões
      
  5. Resumo

 

Introdução

Este trabalho tem como finalidade demonstrar as motivações pessoais e analisar as queixas principais que levam os pacientes a elegerem a acupuntura como forma de tratamento. Para tanto, analisamos um questionário enviado a 450 pacientes selecionados aleatoriamente e devolvidos por 85 destes pacientes; além disto, foram analisadas 3133 fichas clínicas de 2207 pacientes de um consultório privado, cujo titular (o autor) exerce exclusivamente a acupuntura.

Método

a) Estabelecendo as motivações pessoais que levam o paciente a escolher a acupuntura:

Foram selecionados aleatoriamente 450 (quatrocentos e cinquenta) pacientes que tivessem comparecido ao consultório do autor no período entre seis meses e dois anos anteriores à data de início deste trabalho. A estes pacientes foram enviados questionários impressos com postagem de retorno gratuita.
Os questionários constavam de:
1) opção de sexo.
2) opção de idade por faixas de dez anos a partir de 10 anos até mais de setenta anos.
3) razão que levou o paciente a procurar o tratamento por acupuntura, em escolha múltipla, constando das seguintes opções:


a) indicação médica
b) outros tratamentos não fizeram efeito
c) ser mais natural
d) não ter efeitos colaterais
e) experiência positiva de amigos/parentes
f) curiosidade
g) não confia na medicina tradicional
h) outras razões


A opção "outras razões" trazia um espaço para que o paciente detalhasse à qual razão se referia.
4) com relação ao resultado final do tratamento: se foi bem ou mal sucedido, com espaço para que o paciente justificasse o porquê do insucesso do tratamento.
5) as desvantagens do tratamento pela acupuntura, em escolha múltipla, constando das seguintes opções:


a) dor
b) medo
c) custo
d) duração do tratamento
e) outras


A opção "outras razões" trazia um espaço para que o paciente detalhasse a que outra desvantagem se referia.
6) se o paciente utilizaria ou já havia utilizado a acupuntura de novo
7) se o paciente já havia utilizado outra forma não convencional (alternativa) de medicina. Em caso de resposta positiva, foi deixado um espaço para a especificação do tratamento utilizado.

b) Estabelecendo as queixas principais que levam à escolha da acupuntura como forma de tratamento:

Os dados constantes das fichas clínicas foram analisados estatisticamente, procurando se avaliar a frequência das queixas, o perfil do paciente quanto ao sexo e idade, o número médio de sessões de acupuntura em cada situação; num segundo momento, foram analisados somente os casos onde "dor" era a queixa principal. A etiologia não foi levada em consideração, somente o sintoma e sua localização.

Resultados

1- Quanto às motivações pessoais:
Foram devolvidos respondidos 85 (18,89%) questionários.

1.1- Sexo: distribuição de acordo com a tabela 1; a proporção de respostas do sexo feminino foi 1,56 vezes maior do que a proporção de respostas do sexo masculino, com nível de significância de 10%. Não houve diferença significativa (x² = 0,59) entre a amostra pesquisada e a amostra de pacientes do consultório ( tabela 6).

1.2- Idade: distribuição de acordo com a tabela 2; a idade média calculada foi 46,5 anos, com variância de 186,99 e desvio padrão de 13,67. Não houve diferença significativa (t = 0,96) entre a idade média da amostra pesquisada e a idade média da amostra de pacientes do consultório. O gráfico 2 demonstra que as curvas estabelecidas pelas idades das amostras são similares, denominando pesquisa ao conjunto de questionários devolvidos, total ao conjunto de fichas clínicas e dor, ao conjunto de fichas clínicas onde a queixa principal era dor.

1.3- Razões que levaram o paciente a procurar o tratamento por acupuntura: distribuição de acordo com o gráfico 3 e a tabela 3;

1.3.1- Podemos supor que as opções 3, 4 e 7 são consideradas como indicadoras de que a escolha do paciente foi conceitual, havendo uma procura por uma forma de medicina diferente da convencional. Separando os pacientes de acordo com a escolha destas opções, formamos dois grupos: o que denominaremos "naturalistas", que assinalaram ao menos uma das opções acima (3,4 ou 7); "outros", os que não assinalaram nenhuma das opções anteriores. Os dados resultantes estão agrupados no gráfico 4 e na tabela 4. A frequência do grupo "outros" é 1,66 maior do que a frequência do grupo "naturalista" (p = 0,012). Ao analisarmos a distribuição por sexo, constatamos que nos dois grupos o comportamento é significantemente diferente ao nível de 10% (x² = 3,61), com maior frequência relativa feminina no grupo "naturalista" (44,7% das mulheres contra 23,3% dos homens). Não houve diferença significativa entre as idades médias dos grupos "naturalista" e "outros" (t = 1,04 p=0,3).

1.3.2- Definindo a opção "outras razões" encontramos, nos termos empregados pelos pacientes: "substitui medicamentos convencionais agressivos ao organismo", "insere-se numa filosofia de vida", "adequado ao tratamento muscular", "acho eficaz" e "por saber de seus bons resultados".

1.4- Resultado final do tratamento: 73 pacientes (85,8%) marcaram a opção "bem sucedido", enquanto 6 (7,1%) marcaram a opção "mal sucedido"; 6 (7,1%) marcaram as duas opções ao mesmo tempo. A frequência dos grupos "bem sucedido" e a frequência do grupo formado por todos os que marcaram a opção "mal sucedido" (12 pacientes, 14,2%) são significativamente diferentes (p < 0,001).

1.4.1- As razões de insucesso apontadas foram: a)devidas ao médico-2 respostas; b)devidas à doença-1 resposta; c)devidas ao próprio paciente-2 respostas; d) devidas ao tratamento em si-4 respostas.

1.5- Desvantagens da acupuntura: distribuição de acordo com o gráfico 5 e a tabela 5.

1.5.1- Na opção "medo de quê" encontramos: "das agulhas"- 3 respostas; " de dor"- 4 respostas; " de contaminação" - 3 respostas (AIDS foi citada 1 vez)

1.5.2- Na opção "outras desvantagens" encontramos: 5 respostas associando a acupuntura à possível contaminação ( AIDS foi citada 1 vez); 3 respostas questionando os resultados do tratamento ( se paliativo, se trata somente o sintoma); 5 respostas apontando as desvantagens do método em si (desconforto, a frequência das sessões, o tempo de cada sessão).

1.6- Se o paciente utilizaria (ou já utilizou) a acupuntura de novo: 76 pacientes (89,4%) responderam que sim, enquanto 6 (7,1%) responderam que não utilizariam de novo.

1.7- Quanto ao uso de outra medicina não convencional: 56 (65,9%) responderam que já haviam utilizado outra forma de medicina além da convencional; 25 (29,4%) responderam que não. A diferença é significativa (p < 0,001). Houve diferença significativa entre os sexos: 78% das mulheres já usaram formas de tratamento não convencionais, enquanto 19,1% não utilizaram (p < 0,001); quanto aos homens, 50% já haviam utilizado, enquanto 46,7% não (p = 0,37). Dos tratamentos não convencionais, a homeopatia foi assinalada 51 vezes (60%); fitoterapia 4 vezes (4,7%); medicina ortomolecular 2 vezes (2,4%); shiatsu, radiestesia, quiroprática, massagem chinesa tuiná, cromoterapia 1 vez cada (1,2%). A fisioterapia foi considerada um tratamento não convencional por 5 pacientes (5,9%) e a psicanálise por 1 paciente (1,2%).

2- Quanto às queixas principais que levam à escolha da acupuntura como forma de tratamento:

2.1- Análise de todas as fichas clínicas: foram analisadas 3133 fichas clínicas.

2.1.1- Sexo: distribuição de acordo com a tabela 6; a diferença entre as frequências é significativa (p < 0,001).

2.1.2- Idade: distribuição por faixas etárias de acordo com a tabela 7; a idade média foi de 45 anos, com desvio padrão 15 e variância 225,4; a idade média do sexo masculino foi de 43,5 anos, com desvio padrão 14,3 e variância 203,8 enquanto a idade média do sexo feminino foi de 46 anos, com desvio padrão 15,5 e variância 239,3 ; a diferença é significativa (t = 4,68, p < 0,001).

Obs: O ponto médio da faixa "mais de 70" foi calculado como sendo a média da idade de todos os pacientes com a idade acima de 70 anos.

2.1.3- Queixas mais frequentes: distribuição de acordo com a tabela 8.

Na tabela 9 estão listadas as outras queixas além das mais frequentes, todas com frequência relativa abaixo de 1%.

2.1.4- Quanto ao tempo de duração das queixas: distribuição de acordo com a tabela 10. Consideramos duas possibilidades: queixas com menos de seis meses de duração, e queixas com mais de seis meses de duração. A diferença entre as frequências é significativa (p < 0,001).

A tabela 11 correlaciona o sexo com a duração da queixa. A diferença é significativa ao nível de 1% (x² = 22,19).

2.1.5- Quanto à média do número de sessões até a interrupção do tratamento: a média em toda a amostra, independendo da queixa, foi de 6,9 sessões, com desvio padrão de 11,91 e variância de 141,82. Correlacionando o sexo dos pacientes com a média de sessões, obtemos a tabela 12A; a diferença encontrada nas frequências é significativa (t = 2,11 p < 0,05). Correlacionando o tempo de duração da queixa com a média das sessões, obtemos a tabela 12B; a diferença encontrada nas frequências é significativa (t = 8,82 p < 0,001).

Correlacionando a idade dos pacientes com a média das sessões, obtemos a tabela 13. A relação entre idade e número médio de sessões é significativa (r = 0,88).

2.2- Análise das fichas onde "dor" era a queixa principal: 2859 casos de dor foram analisados.

2.2.1- Sexo: distribuição de acordo com a tabela 14; a diferença entre as frequências é significativa (p < 0,001). Não houve diferença significativa entre as frequências quanto ao sexo dos casos de dor e da amostra geral ( tabela 6) (x² = 0,02).

2.2.2- Idade: distribuição por faixas etárias de acordo com a tabela 15; a idade média foi de 45,8 anos, com desvio padrão 15,1 e variância 226,8; a idade média do sexo masculino foi de 43,8 anos, com desvio padrão 14,2 e variância 201,4 enquanto a idade média do sexo feminino foi de 47,4 anos, com desvio padrão 15,5 e variância 240,6; a diferença é significativa (t = 6,38, p < 0,001). Não houve diferença significativa entre a idade média do grupo de pacientes cuja queixa principal foi dor e o total de pacientes analisados (t = 2,05 p < 0,05). Dentre as localizações mais frequentes de dor , houve diferença significativa entre a idade média da amostra total dos casos de dor e a idade média dos casos de dor no ombro (idade média 49,3 anos, variância 188,92) (t = 4,36 p < 0,001). Nos outros casos a diferença entre as médias das idades não foi significativa.

2.2.3- Localizações de dor mais frequentes: distribuição de acordo com a tabela 16.

2.2.4- Quanto ao tempo de duração das queixas de dor: distribuição de acordo com a tabela 17. A diferença entre as frequências é significativa (p < 0,001). Analisando as tabelas 10 e 17, verificamos que há uma diferença significativa entre elas ao nível de 5% (x² = 4,63), com menor frequência da duração "maior que seis meses" nos casos de dor.

A tabela 18 correlaciona o sexo com a duração da queixa. A diferença é significativa ao nível de 1% (x² = 36,94).

2.2.5- Quanto ao número médio de sessões até a interrupção do tratamento: a média em toda a amostra, independentemente da queixa, foi de 6,3 sessões, com desvio padrão de 9,62 e variância de 92,52. Correlacionando o sexo dos pacientes com a média de sessões, obtemos a tabela 19 A; a diferença encontrada nas frequências é significativa (t = 3,36 p < 0,001). Correlacionando o tempo de duração da queixa com a média de sessões, obtemos a tabela 19 B; a diferença encontrada entre as frequências é significativa (t = 8,21 p < 0,001)

Correlacionando a idade dos pacientes com a média de sessões, obtemos a tabela 20. A relação entre idade e número médio de sessões é significativa (r = 0,96).

Quanto à localização da dor, em três situações a diferença entre a média de sessões no caso específico e a média de sessões no total dos casos de dor foi significativa: dor lombar: média 5,5 desvio padrão 7,84 e variância 61,52 (t = 2,57 p < 0,01); dor no ombro: média 8,1 desvio padrão 10,66 e variância 113,56 (t = 2,37 p < 0,02); dor na perna: média 5,1 desvio padrão 4,64 e variância 21,51 (t = 2,19 p < 0,05).

Conclusões

1) A amostra pesquisada através do questionário é significativamente correspondente à amostra total de pacientes do consultório.
2) O que leva o paciente à acupuntura não é o conceito de medicina natural ou alternativa, e sim seus resultados, aferidos através da experiência prévia de amigos e/ou parentes. Dentre os pacientes que procuraram a acupuntura por alguma razão "alternativa", encontramos maior frequência de pacientes do sexo feminino. Os pacientes do sexo masculino apontaram em sua maioria razões sem relação ao conceito de "medicina natural". Não houve variação significativa entre a idade média do grupo feminino e do grupo masculino.
3) Nesta amostra, a maior parte foi bem sucedida no tratamento, e voltaria ( ou já voltou) a utilizar a acupuntura.
4) A desvantagem mais frequentemente marcada foi o custo do tratamento, seguida pela sua duração. Ainda neste item, somente 8 pacientes se referiram à possibilidade de contaminação através da acupuntura.
5) A maioria dos pacientes admitiu já ter utilizado outra forma de medicina não convencional; a homeopatia sendo a mais frequentemente utilizada.
6) O paciente de acupuntura tende a ser do sexo feminino, com a idade média de 45 anos.
7) A queixa mais frequentemente encontrada foi dor, presente em 91% dos casos, seguida por tensão emocional (10% dos casos).
8) A maior parte dos pacientes procura a acupuntura antes da queixa completar seis meses.
9) O número médio de sessões até a interrupção do tratamento aumenta proporcionalmente à idade do paciente e ao tempo de duração da queixa, sendo significativamente maior nos pacientes do sexo feminino do que nos do sexo masculino.
10) Dor lombar é a queixa de 1/3 dos pacientes que procuram a acupuntura, e tem a média de sessões até a interrupção do tratamento significativamente mais baixa que a média da amostra total.

Resumo

Foram analisados 85 questionários e 3133 fichas clínicas de pacientes de acupuntura, buscando se definir o perfil deste paciente. Notou-se que a razão de escolher a acupuntura como tratamento deve-se à experiência prévia de amigos e/ou parentes, e que a visão conceitual de "medicina alternativa" influi pouco nesta escolha. Custo é a principal desvantagem apontada pelos pacientes. O paciente padrão é do sexo feminino com a idade média de 45 anos, cuja queixa principal é dor, principalmente dor lombar. O número médio de sessões até a interrupção do tratamento é proporcional à idade do paciente e ao tempo de duração da queixa. Os pacientes do sexo feminino tendem a ter o número médio de sessões maior que os do sexo masculino.